Basquete é um jogo complicado ou complexo?
Um ponto de partida sobre como o movimento humano funciona e como atletas aprendem
Uma jogada no quadro é uma sequência: A → B → C. Mas o jogo não é. O jogo é composto de dez pessoas decidindo ao mesmo tempo, cada uma reagindo ao que as outras nove acabaram de fazer – e o que elas "acabaram de fazer" já era, por sua vez, uma reação. O resultado da jogada não está contido nas partes: ele emerge da interação entre elas.
Por isso fazemos a distinção entre sistemas complicados e complexos. Complicado é um motor, por exemplo, que tem muitas peças mas se resolve desmontando-o e estudando cada uma delas. Um manual e um certo nível de instrução resolvem maior parte dos problemas complicados. Complexo é outra coisa: o comportamento do todo não se deduz do comportamento das partes isoladas. Como se tentássemos montar o mesmo motor de antes com as mesmas peças e instruções e toda vez saísse algo diferente. Relações humanas normalmente seguem por esse caminho: é a interação entre as partes que define a natureza e qualidade da relação.
Por isso chamamos o basquete de um sistema complexo. Podemos conhecer perfeitamente cada um dos cinco jogadores e ainda assim não saber o que o quinteto vai fazer. Três consequências práticas seguem daí:
A primeira é que o mesmo estímulo não produz o mesmo resultado. Em um sistema linear, dobrar a entrada dobra a saída; aqui, repetir o mesmo bloqueio contra a mesma defesa não produz a mesma leitura duas vezes, porque na segunda vez o defensor já viu a primeira. A relação entre o que o treinador propõe e o que aparece na quadra é não-linear (guarde esse termo pra mais tarde!).
A segunda é que a ordem aparece sem ser imposta. Quando um ataque encontra o espaçamento correto sem que ninguém grite uma instrução, não é porque alguém executou um comando e sim porque as condições tornaram aquela solução a mais disponível. O sistema se organiza sozinho a partir das restrições que encontra – aqui, podemos pensar "sistema" tanto como a equipe como quanto o próprio atleta.
A terceira é a mais incômoda para quem dá treino. Se o comportamento emerge da interação, então o treinador não controla o comportamento diretamente – ele controla as condições em que esse comportamento emerge. É uma mudança de cargo: saímos de quem dita a solução para quem desenha o problema para aquela solução emergir.
Essa forma de pensar vem da dinâmica ecológica, um corpo teórico sobre movimento humano que ganhou tração no início dos anos 2000 com a pesquisa de Keith Davids.
Para avaliar se você está tratando o basquete devidamente como algo complexo, você pode partir de três perguntinhas sobre as características dos seus exercícios e sessões de treinamento. Escolha uma atividade do seu último treino e se pergunte:
1. o que decide o resultado dela?
Se a resposta for "executar o movimento correto", a atividade trata o jogo como complicado; se for "ler o que o adversário fez", trata como complexo.
2. quantas decisões reais o(a) jogador(a) toma por minuto?
Uma fila de bandeja tem zero, enquanto um 3x3 com regra de pontuação tem dezenas.
3. o que acontece quando o(a) jogador(a) erra?
Se o erro só é corrigido pela sua voz, a informação está em você; se o erro produz uma consequência na própria tarefa (perde a posse ou o outro time pontua), a informação está no jogo.
Tratar o basquete como um sistema complexo nos permite enxergá-lo pela perspectiva dos "problemas" que os jogadores e que a equipe têm de resolver constantemente. Nesse sentido, desenhamos nossa prática a partir dos problemas e não das soluções.
