Como pensar uma métrica de treino ou de jogo
Quatro passos para sistematizar a análise de desempenho
Existe uma diferença importante entre número e métrica: um número é qualquer coisa contável, enquanto uma métrica é um número construído para responder a uma pergunta específica. Nosso trabalho, portanto, passa por fazer a pergunta certa e encontrar nos números uma forma de respondê-la. Repare que eu escrevi “uma forma” e não “a forma”. Nenhuma métrica será definitiva. Qualquer métrica que pensemos é apenas uma representação da realidade e não a realidade em si. Ela apenas indica o fenômeno que estamos tentando observar.
Usar números para descrever um fenômeno é o coração de uma abordagem analytics. Fazer isso, é, no fim das contas, a forma mais fácil de registrar, monitorar e analisar sistematicamente como esse fenômeno se comporta ao longo do tempo e frente a diferente condições.
Seja nos treinos ou nos jogos, em qualquer nível, eu começaria a colocar esse processo em prática a partir destes quatro passos e alguns princípios norteadores.
Passo 1. Nomeie o comportamento em termos observáveis
Eu não sei o que “atacar rápido” ou “atacar mais cedo” significa pra você. Mas se fossemos da mesma equipe, certamente teríamos que alinhar nossa definição sob termos observáveis. “Atacar mais cedo” não é observável, mas “tentar o primeiro arremesso antes de X segundos” é. Será muito mais fácil concordarmos com um indicador objetivo representando o comportamento que queremos observar.
Passo 2. Escolha o denominador
Precisamos adicionar uma escala à essa medida. O comportamento que estamos observando é importante em que escala? Por posse? Por treino? Por chance? Aqui adicionamos o denominador que define o que a métrica compara. Neste caso, podemos avaliar o número posses com ataques rápidos em relação ao total do exercício ou do treino. Isso nos daria algo como “62% das posses foram ataques rápidos nesse exercício” ou “atacamos rápido em 50% das posses nesse treino”.
Passo 3. Decida o que fica de fora
Esse é, frequentemente, o passo mais esquecido e talvez o mais importante. Aqui nós filtramos o que entra ou não no nosso pote de posses totais. Por exemplo, uma posse que termina em falta antes do primeiro arremesso não nos diz nada sobre preferência de ritmo (atacar mais cedo), e mantê-la na conta contaminaria a métrica. Portanto, entra no denominador apenas posses válidas que não interferem no comportamento que estamos tentando observar.
Passo 4. Verifique se a amostra sustenta a conclusão
Dois treinos se passaram e em um deles tivemos 73% de ataques rápidos e no outro tivemos apenas 18%. Qual está mais perto da verdade? Nossa média estará mais perto de qual valor daqui um mês? Algumas métricas variam bastante com pouca amostragem – isso enfatiza a importância de se ter um número suficiente de amostras antes de pular para a conclusão (veja mais sobre isso aqui).
comportamento é mais confiável que resultado
Quando for selecionar uma métrica para avaliar seu treino ou seus jogos, prefira medir comportamento a resultado. A razão é simples: comportamento converge rápido. Isso significa que, normalmente, medidas de comportamento que indicam preferência, seleção ou decisão demoram menos tempo para estabilizar e com poucas sessões o número que você vê representa mais sinal do que ruído (variação usual da medida).
Quantas vezes o atleta cortou quando o defensor deu as costas, quantas posses terminaram com inversões de bola, quantos arremessos saíram de alto retorno: contagens com denominador claro e uma semana de treino já nos diz alguma coisa.
Resultado converge devagar. Aproveitamento, efiência ou pontos por posse individual, por exemplo, são métricas que variam mais de sessão para sessão. Logo, precisam de mais amostragem para estabilizar antes de assumirmos que um determinado treino teve um efeito sobre elas. Se pularmos para a conclusão antes da hora, é bem possível que estejamos olhando simplesmente para o acaso e não para o efeito verdadeiro.
A consequência prática é que devemos acompanhar aquilo que a equipe controla: um(a) atleta controla se tentou o arremesso certo, mas não controla se ele entrou.
um quadro para cada métrica
| guia para formular uma métrica | |
|---|---|
| Fenômeno | Movimentação de bola. |
| Comportamento | Inversões de lado. |
| Definição observável | A bola cruza o eixo central da quadra. |
| Denominador | Posses de meia-quadra. |
| Exclusões | Transições, bolas de lateral/fundo. |
| Amostragem | ~20 posses de bola. |
| Quem coleta | Assistente-técnico; ao vivo ou por vídeo. |
Organizar quadros como esse é uma boa ideia para revisar qual o fenômeno se está tentando medir, por quais comportamentos ele se manifesta e como você vai sistematizar a sua mensuração.
Você pode se encontrar revisando e ajustando esse quadro frequentemente à medida em que percebe ou encontra novas formas de se medir o desempenho da sua equipe.
