Pace é uma questão de tempo
Como podemos medir o "ritmo" ofensivo de uma equipe para além do número de posses
O pace pode ser entendido como o “ritmo de jogo” imposto por cada equipe. Assistindo aos jogos, intuitivamente identificamos a preferência de ritmo de uma equipe – se ela gosta de jogar em velocidade ou se ela deliberadamente controla pacientemente as ações a serem desenvolvidas no ataque meia-quadra. Podemos traduzir esse conceito em números usando duas métricas distintas.
A primeira abordagem é, na verdade, uma medida polida do número de posses de um jogo. Lembre-se de que: em um jogo com prorrogações, o número de posses aumenta conforme as equipes passam mais tempo em quadra. Para eliminar esse efeito, podemos calcular o pace como uma estimativa do número de posses no tempo regular de 40 minutos – levando em conta o número de posses das duas equipes:
Nesse caso, o mesmo valor é atribuído às duas equipes. Durante uma partida, se ambas as equipes têm a característica de acelerar o jogo, espera-se que o pace seja mais alto (muitas posses). Por outro lado, se ambas as equipes gostam de jogar com mais paciência, espera-se que o pace daquela partida seja mais baixo (menos posses). Assim, quando calculamos a média do pace de uma equipe durante a temporada, estamos avaliando a sua preferência em aumentar ou diminuir o “ritmo de jogo”, ou seja, aumentar ou diminuir o número de posses da partida.

Embora a primeira abordagem seja muito prática e intuitiva, ela tem limitações quanto ao que se propõe descrever. É fácil subestimar ou superestimar a real preferência que uma equipe tem de acelerar ou cadenciar no ataque usando apenas o número de posses jogadas. Para “resolver” esse problema, utilizamos uma segunda abordagem um pouco mais direta – e que pode ser medida e avaliada durante os treinos e jogos.
O tempo. O jogo é composto de duas partes: ataque e defesa. E o tempo que gastamos no ataque costuma ser diferente do tempo que levamos pra defender uma posse. Ao invés de olharmos apenas para o número de posses de uma equipe, calculamos o tempo médio gasto em suas posses ofensivas e defensivas.
Se por um lado, o tempo médio de uma equipe no ataque pode indicar sua estratégia de ritmo; pelo outro, o tempo médio na defesa pode indicar como essa equipe responde ao ritmo imposto pelo oponente. O tempo de posse é calculado como a diferença de tempo entre uma ação que inicia e uma ação que encerra a posse de uma equipe. Vamos fazer isso com a última temporada do NBB:

A média e mediana ficam em torno de ~14 segundos; mas outros detalhes chamam a atenção. Repare que há posses que duraram 24, 28, 32 e algumas poucas até 48 segundos! Por outro lado, muitas posses duraram menos de um segundo. É seguro dizer que nenhuma equipe tem a estratégia de buscar 48 segundos de posse, tampouco acelerar a ponto de buscar posses de 2 segundos ou menos. Portanto, precisamos entender quais as fontes de ruído embutidas nessa medida e como podemos polir esta métrica para que ela represente o que esperamos: a preferência da equipe em acelerar ou cadenciar o ataque.
Posses muito curtas ou muito longas, de fato, existem. Posses curtas demais acontecem, por exemplo, quando uma equipe comete um turnover precocemente – muitas vezes ainda na quadra de defesa. Há também aquelas posses que ocorrem com pouco tempo restante no período; normalmente precedidas de um tempo técnico. No caso de posses muito curtas, é inconclusivo tentarmos identificar a preferência de ritmo da equipe. Estas são situações atípicas as quais equipes respondem de forma variada, sem necessariamente implicar um padrão.
Por outro lado, temos as posses longas demais; aquelas que ultrapassam os 24 segundos. Dentre principais fatores que podem estender uma posse estão as faltas e os rebotes ofensivos; resetando o relógio de posse em 14 segundos e conferindo tempo adicional ao ataque. Em casos extremos, uma posse pode durar mais de 48 segundos. Como as posses muito curtas, as posses muito longas também não nos informam a preferência de ritmo de uma equipe. Quando a posse é interrompida por uma falta ou “resetada” por um rebote ofensivo, a dinâmica do ataque muda em função do tempo disponível. No caso de rebotes ofensivos, por exemplo, se o jogador não sobe imediatamente para a cesta e passa a bola para fora, o ataque reinicia em condições diversas de tempo disponível e posicionamento.
Um último fator que devemos levar em consideração para limpar nossa métrica de ritmo são “posses vazias”. Estas são aquelas de um tempo relativamente normal (nem muito curtas ou longas), mas que foram interrompidas por um turnover ou por uma falta ofensiva – ações indesejadas (e obviamente não previstas) de qualquer ataque. Ou seja, posses que “fugiram do controle” e que, portanto, adicionam ruído ao que estamos tentando identificar: a preferência de ritmo da equipe.
Depois de tanto limparmos os dados com tantas restrições, o que sobra, então? Sobram as posses, não-estendidas, em que as equipes tiveram a oportunidade de arremessar. Mais especificamente, levaremos em conta apenas o primeiro arremesso da posse para reduzir o efeito do rebote ofensivo. Afinal, é justo assumirmos que a equipe que prefere acelerar o jogo, tem a intenção de finalizar mais cedo. Portanto, ao excluir as fontes de ruído mencionadas anteriormente, limpamos nossa pergunta para algo como: “se dermos uma posse a uma equipe, sem faltas ou turnovers, quanto tempo ela leva para tentar o primeiro arremesso?”.

Essa medida de tempo ofensivo é muito mais indicativa da preferência de ritmo de uma equipe. Ela exprime especificamente o quão rápido uma equipe sistematicamente arremessa – revelando um traço de sua identidade ofensiva.
No último NBB (2025/2026), a variação máxima do ritmo ofensivo foi de 2.4s – diferença entre a equipe mais rápida e a mais lenta ao tentar seu primeiro arremesso. A princípio, essa diferença pode parecer pequena – afinal, é tão diferente uma equipe da outra apenas por arremessar, em média, 2 segundos depois?

Na prática, sim. Essa variação corresponde a, aproximadamente, 6-7 posses em um jogo de 40 minutos. Mais oportunidades para atacar (e defender!). Ao longo de uma temporada com ~34-38 jogos, acumulam-se ~250 posses de diferença considerando essa variação.
Como veremos em outras ocasiões: é mais importante como cada posse é aproveitada do que a quantidade delas. Seja aumenta ou diminuir o ritmo ofensivo, o que cada comissão deve fazer é avaliar os custos e retornos que cada estratégia pode ter em diferentes frentes.
