"Deixa que eu resolvo"
Análise histórica de alguns dos jogadores que mais criam os próprios arremessos no NBB
É possível analisar o volume de jogo como uma métrica individual. Sendo no ataque ou na defesa, constantemente queremos direcionar o volume do jogo para determinados jogadores. No ataque, a tática é pensada com o objetivo de fazer determinados jogadores finalizarem em condições que são mais eficientes. Na defesa, soluções defensivas são usadas para fechar os espaços, tirar a bola da mão de um determinador jogador e direcionar o volume para jogadores menos decisivos. Seja de maneira isolada ou segmentada por regiões da quadra, monitorar o volume individual sistematicamente nos informa o quanto estamos causando desconforto ao oponente – fazendo com que ataquem de maneiras diferentes das que estão acostumados. Por exemplo, quando tiramos a bola da mão de jogadores importantes e a colocamos na mão de jogadores coadjuvantes e menos eficientes.
FLASHBACK
Podemos retomar a temporada 2024/25 do NBB para ilustrar o impacto que o volume individual pode ter, por exemplo, em definir o jogador mais valioso da temporada. Em 2024/25, os principais candidatos a MVP foram: Dontrell Brite (BAU), David Sloan (PIN), Alexey (FLA) e Georginho (FRA). O MVP dessa temporada foi Dontrell Brite, do Bauru Basket. Brite foi o principal pontuador da liga, produzindo, em média, 20.2 pontos por jogo com um aproveitamento de 39.6% do perímetro. Grande parte da sua produção ofensiva partia das oportunidades que ele criava para si – fosse atacando a cesta ou criando espaço para o seu arremesso.

Mais especificamente, cerca de 77% dos seus arremessos convertidos foram “não-assistidos”, ou seja, sem receber a assistência de um companheiro. Para fins de comparação, os outros candidatos a MVP compartilhavam dessa mesma característica – eram exímios criadores de vantagem e dos próprios arremessos. Georginho, do Sesi Franca, liderou este rankingtendo criado 83% dos seus arremessos convertidos.
Em linhas gerais, Brite liderou a liga em pontos por jogo e em número de conversões totais. Seu impacto ofensivo certamente contribuiu para sua premiação. No entanto, o que diferenciou Brite dos outros criadores na temporada 2024/25 foi seu volume de jogo em relação ao restante da equipe. A figura abaixo mostra a distribuição do volume de jogo do BAU, comparando Brite ao restante da sua equipe no NBB 2024/25.

Brite dominou, com margem, o volume ofensivo do Bauru Basket na maioria das partidas – tentando ~42 pontos por jogo, ~27 a mais que a média do restante da equipe. A Tabela X explora essa dinâmica no restante da liga, listando os 10 jogadores com o maior volume de jogo em relação a própria equipe.

Nesse caso, este ranking nos dá informações cruciais sobre as equipes de dois candidatos ao MVP – Brite (BAU) e Sloan (PIN). Além deles, outros jogadores de suas equipes aparecem na lista, reforçando a ideia de que o volume ofensivo do BAU e do PIN recaíram principalmente sobre dois jogadores. Por outro lado, os outros candidatos a MVP – Alexey e Georginho – embora bons criadores, não aparecem na lista pois dividiam mais o volume de jogo com outros jogadores. A composição de elenco suas equipes foram pensadas para isso e o papel que tinham eram, na maioria dos jogos, diferentes do papel que Brite e Sloan tinham em suas respectivas equipes.

Na última década do basquetebol brasileiro, existiram outros jogadores “volume-dominantes” que tiveram indicação ou que receberam prêmios individuais. Os casos “deixa-que-eu-resolvo” que marcaram temporadas e que levaram suas equipes a campanhas vitoriosas ou, senão, campeãs.
Do ponto de vista tático, identificar os jogadores que detém maior parte do volume de uma equipe é fundamental no desenvolvimento de estratégias defensivas mais eficientes. A partir daí, a defesa deve trabalhar para limitar as circunstâncias nas quais estes jogadores são mais eficientes – reveladas por análises espaciais ou contextuais mais detalhadas.
