Dos pés até as mãos

Por que não existe um único jeito certo de arremessar

Pegue dois dos melhores arremessadores que você já viu e compare os movimentos. Um solta a bola no topo do salto, outro ainda subindo; um carrega a bola acima da cabeça, outro quase na frente do rosto. Os dois acertam. O corpo tem dezenas de articulações para entregar três números à bola, e muitas combinações diferentes entregam os mesmos três.

No primeiro texto da trilha vimos que, perto do ângulo que os bons arremessadores usam, o arremesso vira um problema de controlar a velocidade de saída. Agora a pergunta é de onde vem essa velocidade, e o que o corpo faz para que ela saia igual de uma vez para a outra.

Muitos caminhos para o mesmo destino

Esse excesso de soluções tem nome: redundância motora, também chamada de problema dos graus de liberdade. Quadril, joelhos, tornozelos, tronco, ombro, cotovelo e punho podem ser combinados de inúmeras formas para produzir a mesma altura, o mesmo ângulo e a mesma velocidade de saída. Modelos do braço mostram, por exemplo, que o ombro responde mais pela parte vertical da velocidade da bola, enquanto cotovelo e punho respondem pela parte horizontal e pelo giro (1). Para o treinador, a consequência é direta. Antes de corrigir um detalhe da mecânica, vale perguntar se ele atrapalha os três números ou se é só uma solução diferente da que nós usaríamos.

O alcance vem das pernas (em parte)

"Pra arremessar de longe tem que usar as pernas" é uma das frases mais repetidas do basquete, e os estudos a confirmam pela metade (2,3). Num estudo com plataformas de força e sete jogadores experientes, a velocidade do corpo respondeu por uma fatia cada vez maior da velocidade da bola à medida que o arremesso se afastava, e o braço, por uma fatia menor (2).

Mas o braço também acelera. Os estudos que filmaram arremessos a distâncias crescentes encontraram mais velocidade angular no ombro e no cotovelo à medida que o arremesso se afastava (3,4). A leitura mais honesta é que as pernas e o braço dividem o trabalho, e a fatia de cada um depende da força do(a) atleta e da distância. 

Talvez não seja uma questão "do que" usar, mas de quando usar cada articulação. 

A ordem importa mais que a força

Se a força vem de vários lugares, a ordem em que ela aparece parece separar quem acerta. O conceito aqui é a sequência proximal-distal: os segmentos maiores e mais próximos do tronco começam o movimento e passam a velocidade adiante, das pernas para o tronco, do tronco para o braço e do braço para o punho.

Num estudo de eletromiografia com seis jogadores universitários no lance-livre, os arremessos convertidos mostraram duas ativações separadas, primeiro a extensão das pernas e depois a do braço. Nos erros, as duas se fundiram numa só, com pernas e braço estendendo juntos (5). Outros trabalhos apontam na mesma direção: arremessadores mais eficientes espaçam mais os picos de velocidade do joelho, do quadril e do cotovelo, e fazem menos trabalho com o braço (6), enquanto jogadores recreativos tendem a estender ombro e cotovelo ao mesmo tempo (7).

No lance-livre, controle vence potência. Num estudo com 34 jogadores, os que acertavam 70% ou mais flexionavam e estendiam o joelho mais devagar (pico de 213 contra 269 graus por segundo), soltavam a bola mais alto e terminavam com o tronco mais vertical (8). As amostras desses estudos são pequenas, mas o padrão se repete: é importante sequenciar os movimentos para que não se perca força ao longo do movimento.

O que levar para a quadra

Três leituras saem daqui. A primeira é de ritmo: "pernas, depois braço" tem mais respaldo do que qualquer posição fixa de cotovelo. A segunda é de distância: deixe o momento de lançamento (soltura da bola) e a participação das pernas mudarem à medida que o arremesso se afasta, em vez de exigir o mesmo arremesso de todos os lugares. A terceira é de atenção: a consistência da força diz mais sobre o arremesso do que a beleza da mecânica.

Até aqui falamos de um arremesso teórico. Falta ver o que acontece quando o problema muda de verdade, com um defensor na frente, o cansaço do quarto período e o relógio correndo.

Referências

  1. Okubo H, Hubbard M. Kinematics of arm joint motions in basketball shooting. Procedia Eng. 2015;112:443-8. doi:10.1016/j.proeng.2015.07.222
  2. Wiens C, McNitt-Gray JL. The contribution of body center of mass velocity to basketball ball release velocity across shot distances. ISBS Proc Arch. 2020;38(1):128. Disponível em: commons.nmu.edu/isbs/vol38/iss1/128
  3. Podmenik N, Supej M, Čoh M, Erčulj F. The effect of shooting range on the dynamics of limbs angular velocities of the basketball shot. Kinesiology. 2017;49(1):92-100. doi:10.26582/k.49.1.4
  4. Miller S, Bartlett R. The relationship between basketball shooting kinematics, distance and playing position. J Sports Sci. 1996;14(3):243-53. doi:10.1080/02640419608727708
  5. Matsunaga N, Oshikawa T. Muscle synergy during free throw shooting in basketball is different between scored and missed shots. Front Sports Act Living. 2022;4:990925. doi:10.3389/fspor.2022.990925
  6. Templin T, Cabarkapa D, Miller J, Cabarkapa D, Fry A, Eliason T, et al. Relationship between kinematic sequence characteristics, upper extremity joint work, and free-throw shooting accuracy. ISBS Proc Arch. 2024;42(1):93. Disponível em: commons.nmu.edu/isbs/vol42/iss1/93
  7. Li J, Kim Y, Li H, Zhu B, Kim S. Arm joint coordination of collegiate basketball athletes and recreational players when shooting behind the 3-point line. J Hum Kinet. 2025;96:129-43. doi:10.5114/jhk/203104
  8. Cabarkapa D, Cabarkapa DV, Miller JD, Templin TT, Frazer LL, Nicolella DP, et al. Biomechanical characteristics of proficient free-throw shooters—markerless motion capture analysis. Front Sports Act Living. 2023;5:1208915. doi:10.3389/fspor.2023.1208915