O arremesso que o jogo pede

Defensor, cansaço e pressão: o contexto do jogo mexe na biomecânica do arremesso

O arremesso do jogo é outro problema. A bola sai de mais longe, mais rápido, com alguém na frente e com as pernas cansadas, e cada uma dessas coisas mexe nas variáveis biomecânicas do arremesso.

Nos dois primeiros textos da trilha vimos que altura, ângulo e velocidade de lançamento decidem o arremesso e que o corpo tem muitas formas de produzi-las.

Agora vamos ver o que o contexto faz com elas.

A distância cobra em velocidade

Num estudo com dez jogadores experientes arremessando de 2.8, 4.6 e 6.4 m, o aproveitamento caiu de 59% para 37% (1). A altura de saída baixou um pouco (de 2.46 para 2.33 m) e a velocidade de saída subiu de 4.39 para 6.89 m/s. Outro trabalho, com doze jogadores, mediu um aumento de 24% na velocidade do lance-livre para o arremesso de três pontos (2). Os estudos que mediram o ângulo também encontram o mesmo padrão (3,4): de longe, ele cai e se aproxima do ângulo de menor velocidade que vimos no primeiro texto.

O problema é que o custo de errar a força cresce com a distância. No nosso exemplo do primeiro texto, 1% a mais de velocidade leva a bola 9 cm mais longe no lance-livre. Num arremesso de três, os mesmos 1% levam a bola 14 cm mais longe, para uma folga no aro que continua perto de ±3.5 cm. A boa notícia vem do mesmo estudo dos doze jogadores: a variação da velocidade de arremesso para arremesso não aumentou com a distância (2). Bons arremessadores conseguem manter o controle mesmo quando o arremesso mais "força".

Um defensor muda o arremesso, mesmo sem tocar na bola

Com um defensor à frente, jogadores profissionais da primeira divisão espanhola arremessaram a bola com um ângulo maior e ajustaram joelhos e ombros (5). Num estudo com jogadores habilidosos em cinco tipos de arremesso, a presença do defensor deixou o lançamento mais rápido, o salto mais longo e o voo da bola mais longo, aumentou a variabilidade do movimento e derrubou o aproveitamento em mais de 20% (6). Um outro estudo que buscou replicar o experimento com jogadoras encontrou o mesmo tipo de mudança (7).

Os dados de jogo contam a mesma história. Nos dados da NBA de 2012/2013, com quase 20 mil arremessos de três, a bola entrou em cerca de 40% das vezes com o arremessador livre e em cerca de 32% na presença de um defensor próximo (8). Outra análise, com dados de rastreamento, mostrou que quanto mais perto o defensor, mais íngreme a entrada e mais curta a bola (9). São dados observacionais, e a defesa costuma deixar livre quem arremessa pior, mas a direção é clara: o arremesso contestado tende a sair mais alto e cair mais curto. De novo, um problema de velocidade.

Daí vem uma conclusão desconfortável para o treino. Mil arremessos sem ninguém na frente treinam um arremesso que o jogo usa pouco. O conceito por trás disso se chama desenho representativo: para treinar uma habilidade, a tarefa do treino precisa conter as informações que o jogo oferece, e o defensor é uma delas (6).

O cansaço chega primeiro no arremesso longo

Uma meta-análise de 2025 juntou grande parte dos estudos disponíveis sobre fadiga e arremesso (10). O cansaço físico moderado afetou o arremesso de dois pontos; e o cansaço severo afetou o de dois e, mais ainda, o de três pontos. O cansaço mental derrubou o aproveitamento no lance-livre.

A intensidade faz diferença. Em 24 jogadores sub-17, o aproveitamento de três caiu 15% (sem significância) com o coração a 50% da frequência máxima e 28% a 80% (11). Já jogadores sub-18 de elite mantiveram a mecânica e os números da soltura depois de uma série de sprints (12). Num estudo mais recente, o cansaço não mexeu no arremesso de meia distância, mas derrubou o de três: o punho perdeu velocidade, os joelhos ganharam, e a bola passou a ter ângulos de saída e de entrada menores (13). Uma leitura possível é que, cansado, o corpo passa a buscar força nas pernas, e o ajuste fino que o punho fazia na soltura se perde.

Pressão e relógio

A pressão do placar também aparece nos números. Em oito temporadas de lances livres da NBA, os jogadores acertaram de 5% a 10% menos nos segundos finais de jogos apertados, e os piores arremessadores sofreram mais (14). É o fenômeno que a psicologia do esporte chama de choking: o desempenho cai justamente quando ele mais importa.

O que levar para a quadra

A primeira leitura é que o contexto não é ruído em volta do arremesso: ele faz parte da tarefa. Distância, defensor e cansaço mexem na velocidade e no ângulo de lançamento, e o arremesso que o jogo pede só aparece no treino quando o treino é representativo.A segunda é de medida. Contar acertos apenas por zona esconde o que importa. Separar os arremessos em livres e contestados, descansados e cansados e observar as mudanças no arremesso do seu atleta frente a essas modificações diz muito mais sobre o que treinar e como treinar.

Uma última pergunta pra fechar: se o jogo pressiona todo mundo, por que alguns arremessadores aguentam melhor?

Referências

  1. Okazaki VHA, Rodacki ALF. Increased distance of shooting on basketball jump shot. J Sports Sci Med. 2012;11(2):231-7. Disponível em: pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3737873/
  2. Slegers N, Lee D, Wong G. The relationship of intra-individual release variability with distance and shooting performance in basketball. J Sports Sci Med. 2021;20(3):508-15. doi: 10.52082/jssm.2021.508
  3. Miller S, Bartlett R. The relationship between basketball shooting kinematics, distance and playing position. J Sports Sci. 1996;14(3):243-53. doi: 10.1080/02640419608727708
  4. Caseiro A, França C, Faro A, Gomes BB. Kinematic analysis of the basketball jump shot with increasing shooting distance: comparison between experienced and non-experienced players. Acta Bioeng Biomech. 2023;25(2). doi: 10.37190/abb-02205-2023-01
  5. Rojas FJ, Cepero M, Oña A, Gutiérrez M. Kinematic adjustments in the basketball jump shot against an opponent. Ergonomics. 2000;43(10):1651-60. doi: 10.1080/001401300750004069
  6. Gorman AD, Maloney MA. Representative design: does the addition of a defender change the execution of a basketball shot? Psychol Sport Exerc. 2016;27:112-9. Disponível em: researchprofiles.canberra.edu.au/en/publications/representative-design-does-the-addition-of-a-defender-change-the-/
  7. Court Gold CL, Clark B, Lascu A, Gorman AD, Ball N, Maloney MA. Sampling perception-action couplings from competition create representative basketball shooting tasks: a replication and extension of Gorman and Maloney (2016). Psychol Sport Exerc. 2025;78:102828. doi: 10.1016/j.psychsport.2025.102828
  8. Lucey P, Bialkowski A, Carr P, Yue Y, Matthews I. How to get an open shot: analyzing team movement in basketball using tracking data. In: MIT Sloan Sports Analytics Conference; 2014; Boston, MA. Disponível em: la.disneyresearch.com/publication/how-to-get-an-open-shot-analyzing-team-movement-in-basketball-using-tracking-data/
  9. Daly-Grafstein D, Bornn L. Using in-game shot trajectories to better understand defensive impact in the NBA. J Sports Anal. 2020;6(4):235-42. doi: 10.3233/JSA-200400
  10. Li S, Luo Y, Cao Y, Li F, Jin H, Mi J. Changes in shooting accuracy among basketball players under fatigue: a systematic review and meta-analysis. Front Physiol. 2025;16:1435810. doi: 10.3389/fphys.2025.1435810
  11. Ardigò LP, Kuvacic G, Iacono AD, Dascanio G, Padulo J. Effect of heart rate on basketball three-point shot accuracy. Front Physiol. 2018;9:75. doi: 10.3389/fphys.2018.00075
  12. Slawinski J, Louis J, Poli J, Tiollier E, Khazoom C, Dinu D. The effects of repeated sprints on the kinematics of 3-point shooting in basketball. J Hum Kinet. 2018;62:5-14. doi: 10.1515/hukin-2017-0156
  13. Li S, Yang J, Mi J, Li Y. The effects of repeated sprints on mid-range and three-point jump shot biomechanics in elite basketball players. PeerJ. 2025;13:e19983. doi: 10.7717/peerj.19983
  14. Cao Z, Price J, Stone DF. Performance under pressure in the NBA. J Sports Econ. 2011;12(3):231-52. doi: 10.1177/1527002511404785